O que é Educação Popular hoje?
O que é Educação Popular hoje? Atualizando Paulo Freire em tempos de Colonialidade
Falar de educação popular hoje é muito mais do que repetir slogans. É olhar para o mundo — marcado por desigualdades, racismos e crises ambientais — e perguntar: que educação é capaz de fortalecer comunidades na luta por dignidade e pelo "Bem Viver"?
A educação popular não ficou congelada nos anos 60. Ela é um campo em permanente recriação nas periferias, territórios tradicionais, movimentos sociais e até nos espaços virtuais.
1. As raízes e a "não neutralidade"
No Brasil, a educação popular é inseparável das lutas por democratização. Inspirada em Paulo Freire, ela se sustenta em três pilares fundamentais:
Não tolera neutralidade: Ensinar e aprender é sempre um ato político.
Não abre mão de um ponto de partida: A formação nasce da vida concreta e da realidade das pessoas.
Afirma com força o saber popular e os sujeitos desse saber: O educando não é um "vazio", mas portador de memórias e saberes fundamentais.
Em tempos de colonialidade — onde certos conhecimentos são silenciados em favor de padrões eurocêntricos — a educação popular se torna uma ferramenta decolonial poderosa: ela aposta na potência dos saberes ancestrais e comunitários.
2. Colonialidade e o Silenciamento dos Saberes
A colonialidade não é coisa do passado. Não se encerrou com o fim da colonização. Sabe onde ela se manifesta hoje?
Nos Currículos: Que tratam povos indígenas e africanos de forma estereotipada.
Nas Hierarquias: Que colocam o "conhecimento científico" como a única verdade válida.
Nas Linguagens: O uso de termos acadêmicos para excluir as classes populares dos espaços de decisão.
Autores como Aníbal Quijano e Catherine Walsh nos mostram que a colonialidade atinge o saber (o que conta como ciência), o ser (quem é considerado humano) e o poder (como o mundo é organizado). A educação popular questionar e problematiza essas hierarquias ao afirmar que ninguém tem o monopólio do conhecimento verdadeiro.
3. Os 5 Princípios da Educação Popular Hoje
Para atualizar essa prática, precisamos focar em cinco eixos centrais da EP, que são ainda atuais. Esses eixos a gente encontra no pensamento de Paulo Freire, Carlos Rodrigues Brandão, Valéria Resende, Conceição Paludo, entre outros e outras.
3.1. Partir da Realidade Concreta
Não se aplica conteúdo pronto. O/a educador/a deve "ler o mundo" com o grupo. A pergunta importante aqui é: “O que está doendo na nossa comunidade?”; ou “O que está nos afetando negativamente e gerando dor e sofrimento”?; “Que tipo de dor e sofrimento?”
3.2. Diálogo e Escuta Profunda
Não é apenas uma técnica, é uma posição ética. É reconhecer o outro como sujeito e valorizar a palavra de quem costuma ser calado pelas estruturas.
3.3. Problematização Crítica (Conscientização)
Não basta contar histórias; é preciso entender por que as coisas são como são. Quem ganha com essa situação? Isso é o que Freire chamava de Conscientização: perceber-se dentro da estrutura para descobrir-se capaz de mudá-la.
3.4. Coletividade e Organização
Ninguém se liberta sozinho. A educação popular mira o fortalecimento de coletivos e redes de solidariedade. Formar-se é também organizar-se para reivindicar direitos.
3.5. Espiritualidade e Cuidado Integral
Talvez a atualização mais necessária: reconhecer as espiritualidades (terceiros, comunidades de base, cosmovisões afroindígenas) como sabedoria e resistência. Além disso, educação popular hoje é também cuidar de quem luta, combatendo o esgotamento com espaços de acolhida e afeto.
4. Onde a Educação Popular Pulsa?
Ela acontece sempre que o diálogo substitui a imposição e o autoritarismo. A gente vai encontrá-la:
Nas batalhas de rima e saraus periféricos;
Nos mutirões e rodas de conversa de comunidades tradicionais;
Nas brechas do sistema escolar, quando professores, professoras abrem espaço para a participação real;
Nos círculos de cultura on-line e redes virtuais de apoio.
5. Para Refletir (Individualmente ou em Grupo)
Que tal levar estas perguntas para sua próxima reunião ou aula?
Quais saberes aparecem nos nossos encontros? Damos espaço para o saber periférico e ancestral ou apenas para os "especialistas"?
Quem costuma falar e quem costuma ser silenciado nos nossos espaços?
Como estamos cuidando de nós mesmos e uns dos outros para não adoecermos na luta?
Vamos Caminhar Juntos?
Este blog quer ser um companheiro de jornada para educadores, educadoras, lideranças e agentes comunitários. Nos próximos posts, trarei roteiros práticos de encontros formativos e estudos de caso de experiências em territórios.
Gostou dessa reflexão? Deixe um comentário abaixo sobre como a educação popular acontece na sua realidade!
Estante de Referências:
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 75. ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2023. (Obra máxima para entender a relação entre oprimido/opressor e a conscientização).
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. 32. ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2022. (Essencial para a "atualização" de seus conceitos diante das mudanças do mundo).
FREIRE, Paulo. Educação como Prática da Liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967.
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é Educação Popular. São Paulo: Brasiliense, 1982. (Coleção Primeiros Passos). (Um clássico didático para quem quer começar a entender o campo).
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A Educação como Cultura. Campinas: Mercado de Letras, 2002.
BRANDÃO, Carlos Rodrigues; BORGES, Maristela Correa. A educação popular em tempos de globalização. In: Educação & Sociedade, v. 28, n. 98, p. 14-35, 2007.
REZENDE, Valéria. Educação Popular. São Paulo: Brasiliense, 1986.
REZENDE, Valéria. O que é Educação Popular. (Série Tudo é História/Primeiros Passos). São Paulo: Brasiliense.
WALSH, Catherine. Pedagogias Decoloniais: Práticas insurgentes de resistir, (re)existir e (re)viver. Lisboa: Editora 7 Nós, 2017. (Este livro é o "encaixe" perfeito entre educação popular e decolonialidade).
HOOKS, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2017.
SILVA, Petronilha Beatriz Gonçalves e. O jogo e a vida: a educação popular de jovens e adultos negros. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.HOOKS, bell. Ensinando comunidade: uma pedagogia da esperança. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2021.
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