POST SOBRE A FOME NO MUNDO

 O ESTADO ATUAL DA FOME NO MUNDO


Começando a conversa

Onde a fome existe no mundo hoje? Quais são algumas das causas centrais da fome global? Os cidadãos de países de alta renda estão, de fato, contribuindo de forma consistente com os esforços de combate à fome?

A fome continua sendo um dos grandes paradoxos contemporâneos: vivemos em um planeta que produz comida suficiente para todos, mas centenas de milhões de pessoas ainda não têm o que comer diariamente. Mais do que um problema de escassez física de alimentos, a fome é um reflexo de desigualdades econômicas, conflitos armados, crise climática e falhas estruturais nos sistemas alimentares globais.

Ao atualizar os dados e dialogar com relatórios recentes da ONU e de organizações especializadas, este texto busca oferecer um panorama atual da fome no mundo, convidando leitores moralmente comprometidos a transformar informação em ação concreta.

1. Quantas pessoas passam fome hoje?

É um dado amplamente documentado que o mundo produz alimentos suficientes para alimentar todos os seres humanos. No entanto, a fome permanece em níveis inaceitavelmente altos.

Em 2023, cerca de 733 milhões de pessoas passaram fome, o que equivale a 1 em cada 11 pessoas no mundo.

Em 2024, estimativas da ONU indicam uma leve melhora: cerca de 673 milhões de pessoas, ou 8,2% da população mundial, enfrentaram a fome.

pesar dessa pequena redução recente, o número de pessoas famintas continua acima dos níveis pré-pandemia e é aproximadamente 152 milhões maior que em 2019.

Além da fome em sentido estrito, a insegurança alimentar é ainda mais ampla: em 2023, 2,33 bilhões de pessoas viveram insegurança alimentar moderada ou grave (dificuldade recorrente de acesso a alimentos adequados), sendo mais de 864 milhões em situação grave, chegando a passar um dia inteiro ou mais sem comer. 

Fome no mundo: um panorama da situação atual

Em 2022, mais de 2,8 bilhões de pessoas não puderam pagar por uma dieta saudável. Esses números mostram que a fome hoje não é apenas uma emergência humanitária localizada, mas um sintoma estrutural de um sistema econômico e alimentar desigual.

2. Onde a fome se concentra?

A fome é um fenômeno global, mas a sua distribuição geográfica é profundamente desigual.

  1. África

A África continua sendo o epicentro da fome mundial: em 2023, cerca de 1 em cada 5 pessoas no continente passou fome, com uma prevalência estimada em 20,4% da população africana. Em 2024, a proporção da população africana em situação de fome ultrapassou novamente os 20%, afetando aproximadamente 307 milhões de pessoas.

Além disso, a insegurança alimentar moderada ou severa atinge cerca de 58% da população africana, o que significa que mais da metade enfrenta dificuldades relevantes para acessar alimentos adequados. 

Conflitos armados, instabilidade política, crise climática (secas prolongadas, enchentes, degradação de solos) e sistemas produtivos frágeis se combinam para manter o continente em uma situação de vulnerabilidade extrema.

  1. Ásia

A Ásia, pela sua grande população, ainda concentra o maior número absoluto de pessoas famintas: cerca de 8,1% da população asiática está em situação de fome. 

A região ainda abriga mais da metade de todas as pessoas que passam fome no mundo

Embora algumas sub-regiões asiáticas tenham apresentado melhoras, a Ásia Ocidental segue uma tendência oposta: em 2024, 12,7% da população da Ásia Ocidental — mais de 39 milhões de pessoas — enfrentaram a fome, com aumento em relação aos anos anteriores.

  1. América Latina e Caribe

A América Latina e o Caribe apresentaram avanços recentes, mas a situação continua frágil: em 2023, cerca de 6,2% da população da região estava em situação de fome; em 2024, a proporção caiu para 5,1%, o que representa 34 milhões de pessoas

Esse progresso, entretanto, é desigual entre países e altamente sensível a choques econômicos, políticos e climáticos.

  1. O caso brasileiro

O Brasil ilustra bem o paradoxo da fome em um grande produtor de alimentos: a fome atinge cerca de 33,1 milhões de pessoas no Brasil, o que corresponde a 15,5% da população

As regiões Norte e Nordeste concentram a maior parcela de famílias com insegurança alimentar grave ou moderada, alcançando aproximadamente 40% dos domicílios em alguns estados. 

Apesar de avanços recentes em políticas de proteção social, a crise econômica, a inflação de alimentos, o desemprego e a descontinuidade de programas estruturantes contribuíram para o retorno do país ao mapa da fome nos últimos anos.

3. Tipos de fome: aguda, crônica, epidêmica e endêmica

Para compreender melhor o fenômeno, é útil diferenciar alguns tipos de fome:

  • Fome aguda (ou epidêmica):

De curta duração, associada a eventos específicos, como guerras, desastres naturais, epidemias e choques econômicos. Exemplo: crises geradas por conflitos na Ucrânia, no Sudão, na Síria, no Iêmen ou por eventos extremos de seca e enchentes.

  • Fome crônica (ou endêmica):

Prolongada, ligada a estruturas socioeconômicas persistentes, como pobreza, desigualdade, baixa renda, falta de acesso à terra, ausência de políticas públicas e marginalização de populações inteiras.

  • Fome oculta:

Não se manifesta necessariamente como falta absoluta de comida, mas como deficiência de nutrientes essenciais (vitaminas, minerais, proteínas), prejudicando o desenvolvimento físico e cognitivo, sobretudo em crianças.

A maior parte dos países que aparecem nas posições mais críticas dos rankings internacionais — como o Índice Global da Fome — combina fome crônica com episódios recorrentes de fome aguda, especialmente em contextos de conflito armado e colapso institucional.

4. Causas estruturais da fome no mundo hoje

As causas da fome são complexas e interligadas. Ainda que seja impossível esgotá-las em um único texto, é possível identificar alguns eixos centrais.

4.1 Pobreza, desigualdade e políticas públicas insuficientes

A fome é, em grande medida, uma expressão da pobreza e da desigualdade socioeconômica:

  • A principal causa da fome é a desigualdade de acesso aos alimentos, não a falta de produção.

  • Altos índices de inflação e desemprego, somados à dificuldade de acesso a programas de transferência de renda e à baixa efetividade de políticas públicas de combate à fome, agravam o problema.

Governos que adotam políticas que inibem o desenvolvimento humano, negligenciam a agricultura familiar, enfraquecem sistemas de proteção social ou priorizam ajustes fiscais em detrimento de direitos básicos, acabam perpetuando a pobreza e, com ela, a fome.

4.2 Sistema globalizado de produção e comércio de alimentos

O sistema alimentar globalizado é marcado por contradições profundas:

  • Muitos países pobres ou de baixo desenvolvimento exportam grandes quantidades de alimentos, ao mesmo tempo em que não garantem alimento suficiente, nutritivo e acessível para sua própria população.

  • A ênfase em commodities agrícolas de exportação (soja, milho, café, cacau, cana-de-açúcar, etc.) frequentemente marginaliza culturas alimentares locais e sistemas de subsistência.

  • Problemas logísticos, políticas protecionistas, barreiras comerciais e desperdício de alimentos ao longo da cadeia (da colheita ao consumo) agravam a má distribuição global de comida.

Assim, a fome está menos ligada ao “quanto” se produz e mais ao “como”, “para quem” e “sob quais regras” se produz e se comercializa.

4.3 Crises econômicas e inflação de alimentos

Choques econômicos recentes — como a pandemia de COVID-19 e as repercussões da guerra na Ucrânia — tiveram efeitos diretos sobre os preços dos alimentos:

  • Entre 2021 e 2023, o mundo vivenciou um período de forte inflação de alimentos, que corroeu o poder de compra, sobretudo nos países de baixa e média renda.

  • A combinação de políticas fiscais e monetárias adotadas durante a pandemia, somada a disrupções em cadeias de suprimentos e ao aumento do custo de energia e insumos agrícolas, elevou significativamente o custo de uma dieta saudável.

Em consequência, mesmo em contextos em que há alimentos disponíveis nos mercados, milhões de famílias simplesmente não conseguem pagar por eles.

4.4 Conflitos armados e deslocamentos forçados

Conflitos militares — civis ou entre Estados — continuam entre os principais motores da fome.

A ONU destaca que, em vários países, especialmente na África e na Ásia Ocidental, a fome cresce justamente onde há crises alimentares prolongadas e guerras civis;

Conflitos afetam a fome de múltiplas formas:  destroem plantações e infraestrutura produtiva; impedem o fluxo de comércio e de ajuda humanitária; desviam recursos públicos para o esforço de guerra; forçam o deslocamento de populações inteiras para campos de refugiados, onde a sobrevivência passa a depender de assistência externa.

Países como Sudão, Sudão do Sul, Síria, Iêmen, Haiti e a Faixa de Gaza são exemplos dramáticos, frequentemente citados pela ONU como áreas de emergência alimentar aguda. 

Fome global diminui, mas aumenta na África e na Ásia.

4.5 Crise climática, secas e enchentes

O clima sempre desempenhou um papel importante na dinâmica da fome; porém, hoje, a crise climática torna os riscos muito maiores.

Secas severas, ondas de calor, climas áridos e escassez hídrica reduzem a produtividade agrícola e tornam terras antes férteis praticamente inutilizáveis.

Inundações, furacões, tempestades intensas, enchentes e fenômenos como El Niño/La Niña podem: destruir plantações; contaminar estoques de alimentos; desorganizar cadeias de abastecimento.

A ONU destaca que a mudança climática é hoje um dos principais fatores de risco para a segurança alimentar, exigindo adaptações urgentes nos sistemas agroalimentares em direção à resiliência climática

4.6 Saúde, pandemias e vulnerabilidade social

A fome interage de forma complexa com a saúde.

Pandemias, como a COVID-19, não apenas aumentam o desemprego e a pobreza, mas também: sobrecarregam sistemas de saúde; interrompem cadeias de abastecimento; dificultam o acesso físico a serviços sociais e a programas de alimentação.

Doenças que atingem predominantemente a população em idade produtiva — como historicamente a AIDS em algumas regiões da África — reduzem a força de trabalho, inclusive no setor agrícola, impactando diretamente a oferta local de alimentos, além de aumentar o número de dependentes por trabalhador produtivo.

4.7 Estrutura fundiária, exclusão rural e degradação ambiental

Em muitos países, a fome também está ligada a: a) concentração fundiária (poucos detêm a maior parte das terras produtivas); b) expulsão de povos tradicionais, indígenas e comunidades camponesas de seus territórios; c) degradação do solo, desmatamento e manejo inadequado dos recursos naturais.

Esses processos enfraquecem sistemas alimentares locais baseados na agricultura familiar e de subsistência, e ampliam a dependência de mercados externos e de cadeias longas de suprimento, mais vulneráveis a choques.

5. A fome é um problema insolúvel?

Os dados mais recentes apontam um quadro ambivalente:

  • De um lado, há melhoras pontuais — como a redução da fome na América Latina e no sul da Ásia e a queda, ainda que modesta, do número global de pessoas famintas de 2022 para 2024.

  • De outro, a fome aumenta na África e na Ásia Ocidental, e as projeções indicam que, mantidas as tendências atuais, cerca de 512 milhões de pessoas poderão estar cronicamente subalimentadas em 2030, sendo quase 60% na África

Níveis de fome seguem persistentemente altos por três anos, segundo a ONU.

Isso significa que o mundo está fora da trajetória para cumprir o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 2 — Fome Zero até 2030.

Não se trata, porém, de um problema tecnicamente insolúvel: há conhecimento, recursos e tecnologia suficientes para erradicar a fome. O que falta é vontade política, coordenação internacional e compromisso real com a redução das desigualdades.

6. E o papel dos cidadãos dos países desenvolvidos?

Se você está lendo este artigo com acesso à internet e relativa segurança alimentar, é muito provável que esteja em uma posição de privilégio em relação à maior parte da população mundial. Isso traz, inevitavelmente, uma responsabilidade ética.

A contribuição de cidadãos de países de alta e média renda pode assumir diversas formas:

  1. Doação a organizações confiáveis

Apoiar financeiramente instituições internacionais e locais que atuam com segurança alimentar, agricultura familiar, combate à desnutrição infantil e ajuda humanitária em zonas de conflito.

  1. Engajamento político e cidadão

Pressionar governos e parlamentares por: políticas de proteção social robustas; fortalecimento de estoques públicos e programas de alimentação escolar; apoio à agricultura familiar e a sistemas alimentares sustentáveis; compromisso efetivo com metas climáticas e de redução da desigualdade.

  1. Escolhas de consumo e combate ao desperdício

  • Reduzir o desperdício de alimentos em casa e nos estabelecimentos que frequentamos;

  • Valorizar cadeias curtas de produção (produtores locais, agricultura familiar);

  • Optar, sempre que possível, por produtos cuja cadeia produtiva respeite direitos humanos e ambientais.

  1. Educação, informação e mobilização social

Compartilhar conhecimento de qualidade sobre a fome, combater narrativas simplistas (como a ideia de que o problema é “excesso de população” ou pura “falta de esforço individual”) e apoiar campanhas globais, como as ligadas à Agenda 2030 e ao ODS 2.

Conclusão

A fome no século XXI não é fruto de fatalidade, mas de escolhas — econômicas, políticas, ambientais e morais. Os dados mais recentes mostram que centenas de milhões de pessoas ainda são privadas do direito mais básico: o direito à alimentação adequada. Ao mesmo tempo, demonstram que, quando há políticas públicas consistentes, cooperação internacional e mobilização social, é possível reduzir a fome de forma significativa, como se observa em determinadas regiões da América Latina e do sul da Ásia.

Se você lê este texto em segurança, diante de um prato relativamente garantido, está numa posição singular: pode escolher a indiferença — ou pode optar por usar seu tempo, sua voz, seu voto, suas redes e, quando possível, seus recursos financeiros para diminuir o sofrimento invisível da fome.

Não há neutralidade diante desse cenário: ou contribuímos, ainda que modestamente, para a sua perpetuação, ou nos engajamos, de forma gradual e concreta, na tarefa coletiva de superá-la.

Sugestões de Atividades: vamos refletir?

Compartilho com você, caro leitor e cara leitora, algumas questões, que podem ser respondidas individual ou coletivamente, com seu grupo, em sua aula, na reunião da sua equipe, enfim. Você pode comentar no Blog. Vamos lá?

  1. Como a fome se relaciona com o seu cotidiano?

  • Você já deixou de pensar em quem produziu o alimento que está no seu prato?

  • Em algum momento da sua vida você ou alguém próximo passou por insegurança alimentar?

  1. O que mais te surpreendeu nos dados sobre fome?

  • O número absoluto de pessoas famintas?

  • O fato de que o mundo produz comida suficiente?

  • A relação entre fome e conflito/clima/desigualdade?

  1. Quais são, na sua opinião, as principais responsabilidades individuais e as principais responsabilidades do Estado diante da fome?

  • Onde termina o dever do indivíduo e começa o dever das políticas públicas?

  1. Você considera a fome um problema distante ou próximo? Por quê?

  • Em que medida a forma como você se informa (mídia, redes sociais, bolha social) torna a fome mais visível ou mais invisível para você?

  1. Se você tivesse que escolher uma única prioridade de ação para combater a fome no seu país, qual seria?

  • Fortalecer agricultura familiar?

  • Aumentar programas de transferência de renda?

  • Reduzir desperdício de alimentos?

  • Investir em educação alimentar e nutricional?

  • Pressionar por políticas climáticas?


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